Na minha postagem anterior, cheguei a abordar o papel da escola pública na garantia de segurança alimentar para a população de seis a quatorze anos que corresponde aos nove anos de ensino fundamental durante o qual toda criança freqüentando a escola pública tem o direito a, no mínimo, uma refeição completa. Assim sendo, se for seguir o meu raciocínio anterior, e usar as escolas também durante as férias escolares para oferecer uma refeição diária para os alunos que dela necessitam, pelo menos para esta faixa etária da população brasileira, há como, de fato erradicar a fome permanentemente.
No entanto, nem tudo que parece tão simples é assim de fato – deveria ser, mas infelizmente não é. Isso porque o simples fato de oferecer comida não garante que as crianças se alimentam: além de oferecer comida na escola, é imprescindível que se faz em condições dignas e que também a escola que é o local eleito pela sociedade para ensinar os nossos filhos não oferece sinais mistos com relação aos hábitos alimentares.
Infelizmente, a maioria das escolas públicas e particulares brasileiras não oferece nem o primeiro e nem o segundo. Começando pelo último: enquanto as escolas abrigam cantinas que, quase universalmente, oferecem alimentos nocivos à saúde (casos de fritura, doces, bolachas recheadas e salgadinhos – que são todos muito atrativos para o paladar infantil) e que competem com a oferta de comida pela escola cujo cardápio geralmente é preparado por nutricionistas para oferecer refeições balanceadas de acordo com as necessidades fisiológicas das crianças atendidas por uma determinada escola, estamos nos arrogando da possibilidade de contribuir para a educação alimentar das novas gerações, reduzindo os gastos presentes e futuras com sistema de saúde e de garantir a segurança alimentar dessas crianças. A questão de poder se alimentar com dignidade na escola, em minha opinião, passa por três questões fundamentais – ter o tempo, espaço e forma necessários para esta finalidade. Nas escolas dos meus filhos (públicos estaduais e municipais) oferecem a refeição diária durante o recreio que não só é um tempo muito curto (20 minutos) para poder se alimentar e fazer digestão (para comparar, o trabalhador tem o direito a uma hora para almoçar) mas, em termos educacionais, acaba equivalendo em importância o ato de se alimentar com o ato de brincar – e acabam sendo alternativos, ou faz um ou outro, em muitas escolas. Para se comer com dignidade é essencial ter além de prato e talher um local limpo e mobiliado com mesas e cadeiras ou bancos – no caso de escolas de um refeitório (não tem que caber todos os alunos simultaneamente porque os alunos podem comer em grupos de salas seqüencialmente): hoje, especialmente quando chegar aos seus 10 ou 11 anos, as crianças se importam muito com sua aparência e especialmente das roupas e assim preferem não se alimentar mesmo estando com muita fome para evitar ter que sentar no chão para comer ou comer em pé e correr o risco que outra criança que esteja brincando no pátio esbarra nela e suja suas roupas. Por último, uma vez que entendemos que o ato de se alimentar na escola pode, e por mim, deve se considerado como parte do processo educacional passa a fazer parte do dia dos professores se alimentarem na mesma mesa e no mesmo horário com seus alunos.
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